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Academia Santanense de Letras, Ciências e Artes

A corrente dos livros por Cláudio Campos

19/08/2026

Crônicas santanenses

A corrente dos livros por Cláudio Campos

Há lugares que, vistos de fora, parecem apenas um bar. Mas alguns acabam se tornando uma verdadeira escola da vida. Os melhores anos da minha juventude passei em um desses lugares.

Na verdade, era um estabelecimento que mudava de identidade conforme a necessidade: ora bar, ora mercearia, ora salão de sinuca. Tudo isso reunido sob o mesmo teto. Foi ali que comecei cedo. Aos doze anos, já seguia os passos de Carlos e Zé Antônio, que me antecederam desde os tempos da sorveteria. Depois vieram Cloves, Celso e César. Nos dias da festa da padroeira, o movimento era tão grande que até as mulheres da família eram convocadas para ajudar.

O dia começava antes mesmo de amanhecer. Antes das cinco e meia da manhã, Seu Zé já descia a ladeira naquele passo apressado que mal conseguíamos acompanhar. Pouco depois, estávamos na Rua Tertuliano Nepomuceno, entre as mercearias do Sr. José Nobre e do Sr. Né Ricardo, prontos para mais uma jornada.

Foi ali que conheci pessoas inesquecíveis.

Os vizinhos já eram um espetáculo à parte. Ciço Mouco e Zé Vaqueiro — o pobre — travavam batalhas intermináveis na mesa de sinuca. Os poucos caraminguás que possuíam mudavam constantemente de bolso, num revezamento curioso que, no fim das contas, só enriquecia o dono do bar e os muitos "perus" que cercavam as mesas, distribuindo elogios interesseiros na esperança de ganhar um café, um cigarro ou qualquer pequeno agrado dos jogadores.

Também apareciam figuras como Aracati, Véio Zé e Neguinho de Niva.

À noite, o ambiente mudava completamente. Era a vez de Maneca, com seu assobio inconfundível, do Sr. Idelzuito enfrentando Seo Craveiro em partidas memoráveis e das famosas "peruadas" do Sr. Aníbal, que divertiam todos os presentes.

Quanta saudade daquele tempo.

Foram tantas as pessoas que conheci naquele lugar que seria impossível lembrar de todas. Ainda assim, algumas merecem registro.

Como esquecer Nestor Nóia? Era o verdadeiro anjo da guarda das mesas de sinuca de Seo Zé Soares. Cuidava delas como quem cuida de uma obra de arte e mantinha uma amizade quase infantil com meu irmão Cloves, a quem ensinou parte de seu ofício.

Havia também Ruidinho, sempre encarregado dos mandados de Seo Zé Soares; Arcelina, segunda mãe de Carlinhos e dona do melhor café que já provei; Seu Jonas Pacífico, grande amigo de meu pai e, ao lado do Véio Aníbal, uma espécie de "conselheiro fiscal" para qualquer assunto que exigisse contas ou opiniões. E havia ainda Seu Zé Malta, homem por quem aprendi cedo a nutrir profundo respeito, graças ao caráter firme e ao espírito sempre presente.

Foi naquele ambiente que ganhei meu primeiro dinheiro.

Vendia volantes da antiga Loteria Esportiva. Pegava os talões no caldo de cana de Bené e os revendia aos fregueses do bar. Um deles tinha lugar especial na minha lembrança: o professor Ernande.

Professor de Geografia no Colégio Deraldo Campos, Ernande sempre despertou minha admiração. Em sala de aula, mantinha certa distância dos alunos. Tratava todos com a mesma discrição e jamais demonstrava preferência por ninguém. Eu era apenas mais um entre tantos estudantes curiosos.

No bar, porém, ele parecia outra pessoa.

Conversava, sorria, contava histórias e permitia que o conhecêssemos além da figura séria da escola. Foi ali que nasceu uma amizade improvável entre um professor e um garoto apaixonado por leitura.

Sempre que surgia um momento de folga, eu mergulhava nos famosos livrinhos de bolso. Herdara de meu pai esse vício saudável. Lia tudo o que me caía às mãos: faroestes, aventuras de Brigitte Montfort, os romances da coleção ZZ7 — da qual o professor Sílvio Bulhões possuía, talvez, a maior coleção de que já ouvi falar.

Ernande compartilhava da mesma paixão.

Bastava me ver com um daqueles pequenos livros para se aproximar, observar a capa e perguntar, quase como um ritual:

— Claudio, depois me empresta esse, está bem?

— Claro, professor.

Na maioria das vezes, os livros eram meus ou de Seu Zé, e nunca havia problema algum.

Certo dia, eu estava com dez livros novinhos em folha. Não eram meus. Pertenciam a Ailton, que trabalhava nos Correios e os havia confiado a mim por alguns dias.

Enquanto admirava aquelas preciosidades atrás do balcão, Ernande entrou no bar.

Tentei escondê-las debaixo do balcão, mas foi inútil. Seu olhar era rápido e certeiro.

— Opa! Livros novos? Empreste alguns para mim.

Fiquei sem reação. Não tinha coragem de negar um pedido do professor, mas também não podia esquecer que aqueles livros tinham dono e prazo para serem devolvidos.

Entreguei-lhe os dez exemplares, fazendo apenas uma recomendação:

— Professor, tenha cuidado. Esses livros não são meus. São de um amigo, e preciso devolvê-los logo.

Ele sorriu, com a tranquilidade de sempre.

— Não se preocupe. Muito antes do prazo estarão de volta.

Quando já se preparava para sair, voltou-se novamente para mim.

— Claudio, em troca dos livros que estou levando, mais tarde trarei alguns dos meus. Quando eu devolver os seus, você me devolve os meus.

Achei a proposta justa.

— Combinado.

Naquele mesmo dia, Ernande apareceu carregando um embrulho.

E que embrulho!

Eram vinte livros, todos novinhos.

Olhei para aquela pilha e pensei, aliviado:

"Agora estou garantido. Se ele me deixou vinte livros em troca de dez, não há a menor possibilidade de desaparecer com os de Ailton."

Passei a semana inteira mergulhado na leitura. Se não consegui ler todos os vinte, li pelo menos aqueles que mais despertavam minha curiosidade.

Enquanto isso, os dez livros de Ailton continuavam nas mãos do professor.

Chegado o prazo combinado, deixei os vinte livros cuidadosamente embrulhados atrás do balcão, esperando apenas a chegada de Ernande para fazermos a troca.

Ele apareceu.

Conversamos sobre futebol, política, conhecidos da cidade e novidades do dia.

Mas nem uma palavra sobre os livros.

Pensei que tivesse esquecido.

No dia seguinte, a mesma coisa.

Depois outro.

E mais outro.

Os vinte livros continuavam debaixo do balcão, prontos para serem devolvidos, enquanto eu começava a sentir o peso da responsabilidade. Ailton já perguntava pelos seus exemplares, e minha tranquilidade começava a desaparecer.

Mesmo assim, eu tinha vergonha de tocar no assunto. Esperava que a iniciativa partisse do professor.

Ao fim de duas semanas, sem alternativa, criei coragem.

— Professor... é que... o senhor sabe... aquele negócio...

Ele ergueu os olhos.

— Que negócio?

— Os livros...

— Ah! Os livrinhos de bolso! Está tudo certo. Não se preocupe.

Naquele instante, senti um enorme alívio.

"Pronto", pensei. "Hoje mesmo ele vai devolver os livros."

Inclinei-me para pegar o pacote com os vinte exemplares que estavam guardados atrás do balcão.

Foi então que Ernande perguntou, com a maior naturalidade do mundo:

— Claudio, você já passou aqueles vinte livros para a frente?

Antes mesmo que eu respondesse, ele continuou:

— Porque aqueles dez que você me emprestou... eu já passei para a frente.

Fiquei imóvel.

Na mesma hora fiz uma conta rápida, dessas que qualquer estudante do antigo ginásio resolveria.

Se ele havia emprestado vinte livros para garantir dez... e já tinha repassado os dez para outra pessoa...

Alguma coisa estava muito errada naquela matemática.

Minha mão, que já puxava o pacote para lhe devolver, parou no meio do caminho.

Foi então que o professor percebeu minha expressão de espanto.

Sorriu discretamente, deu uma longa tragada em um de seus intermináveis cigarros e perguntou:

— Você está preocupado com os dez livros?

Assenti com a cabeça.

Ele continuou, como se estivesse explicando a coisa mais simples do mundo:

— Ora, Claudio, isso é fácil de resolver. Passe para a frente os vinte livros que lhe emprestei. Assim, fica tudo acertado.

Para ele, talvez.

Para mim, não.

Na minha cabeça, havia um problema matemático impossível de resolver.

Se eu entregasse aqueles vinte livros a outra pessoa, continuaria devendo os dez de Ailton. Mais cedo ou mais tarde, a conta não fecharia. Em algum ponto daquela corrente, alguém acabaria no prejuízo.

Resolvi argumentar:

— Professor, desse jeito o senhor sai perdendo. Trocar vinte livros por dez não parece um bom negócio.

Ele me olhou com um misto de paciência e divertimento, como quem enxergava um detalhe que escapava ao meu raciocínio.

Deu mais uma longa tragada no cigarro, soltou lentamente a fumaça e abriu um sorriso.

— Meu jovem... não se preocupe com isso.

Fez uma pequena pausa.

— Os vinte livros que lhe emprestei... também não eram meus.

Fiquei olhando para ele, sem saber se ria ou se me desesperava.

Ele, completamente tranquilo, ajeitou o cigarro entre os dedos e concluiu, como quem acabava de revelar uma grande filosofia de vida:

Meu jovem — disse, depois de uma longa tragada em um de seus intermináveis cigarros. — Não se preocupe com isso. Os vinte livros que lhe emprestei também não eram meus. Vamos fazer a corrente funcionar

Durante muito tempo pensei naquela conversa.

Nunca soube quantas voltas aqueles livros deram, quantas mãos os folhearam ou quantos leitores participaram daquela improvável rede de empréstimos. Também nunca descobri onde a corrente começou, muito menos onde terminou.

O que sei é que Ernande enxergava os livros de um jeito diferente. Para ele, livros não eram objetos destinados a permanecer nas estantes; eram companheiros de viagem. Deviam circular, provocar encontros, despertar curiosidades e criar novas histórias.

Talvez por isso nunca tenha se preocupado com a propriedade de um exemplar, mas com o destino das ideias que ele carregava.

Hoje, quando vejo um livro parado numa prateleira, lembro-me daquele velho professor, de seus cigarros intermináveis e da lógica desconcertante com que enfrentava a vida.

E sorrio ao imaginar que, em algum lugar, a corrente talvez ainda esteja funcionando.


Cláudio Campos