No fim, o que mais importa é não nos perdermos uns dos outros
Crônicas santanenses

Há algo profundamente belo — e ao mesmo tempo extremamente delicado — na tentativa de manter uma família unida ao longo do tempo.
Talvez porque a unidade familiar seja uma das maiores virtudes que uma casa pode possuir… e também uma das mais difíceis de preservar. Principalmente quando os membros são numerosos. Porque o tempo passa… as pessoas crescem… amadurecem… seguem seus caminhos… casam-se… multiplicam-se… e inevitavelmente começam a construir universos interiores próprios. Cada pessoa é um mundo. Tem seus gostos, suas dores, suas escolhas, seus afetos, suas convicções. E tudo isso, naturalmente, acaba interferindo naquele conjunto que um dia parecia indivisível.
Minha família sempre zelou por essa unidade. Enquanto meus pais puderam, mantinham todos nós próximos. E mesmo depois que a vida exigiu que saíssemos de casa — pelo trabalho, pelos casamentos e pelas necessidades naturais da existência — jamais saímos do coração deles. O vínculo nunca foi perdido. Vieram os netos, bisnetos, tataranetos… verdadeiras bênçãos que ampliaram ainda mais nossa história. Mas junto com essa multiplicação também vieram novas formas de pensar, novos comportamentos, novos conflitos e diferentes sensibilidades. Algo absolutamente humano. Porque crescer também significa lidar com diferenças que antes talvez nem existissem.
Depois da partida de meu pai, em 1999, ainda tive a graça de reunir todos os meus irmãos e irmãs ao lado de minha mãe na celebração dos 80 anos dela. Talvez sem perceber, aquele momento tenha sido uma espécie de fotografia rara do tempo tentando permanecer inteiro. Depois disso, reunir todos novamente tornou-se algo muito difícil. Não porque o amor tivesse acabado… não porque a unidade tivesse desaparecido… mas porque a disponibilidade da vida começou a estremecer aquilo que antes parecia simples. E após a partida de nossa matriarca, poucos dias antes de completar 97 anos, todos os esforços continuaram sendo feitos para preservar aquilo que sempre foi desejo dela e de meu pai: que a família permanecesse unida.
Eu sabia que não seria fácil. Conheço a personalidade de cada irmão, irmã, sobrinho e sobrinha. Conheço os silêncios, as sensibilidades e até as pequenas feridas que às vezes surgem dentro das relações humanas. Ainda assim, em maio de 2026, foi programado aqui em Alagoas um encontro familiar por ocasião do aniversário de três pessoas muito importantes para nossa história: minha irmã Darcy, a primogênita; minha irmã Gerusa; e eu, o mais velho entre os homens. Todos os meus irmãos e irmãs estiveram em Alagoas. Nem todos conseguiram estar juntos no mesmo local em todos os momentos. Pequenas rusgas, falatórios e situações criadas por pessoas que chegaram depois acabaram gerando desconfortos que alguns preferiram evitar. E sinceramente? Talvez, diante das circunstâncias, tenha sido até um gesto de prudência.
Mas há algo maior do que isso tudo. O que realmente importa é que, apesar das dificuldades, apesar das distâncias, apesar das diferenças e das limitações humanas, todos estiveram aqui. Isso me confortou profundamente. Porque entendi mais uma vez que família não é a ausência de conflitos… família é aquilo que continua existindo apesar deles. É o vínculo que resiste mesmo quando a convivência nem sempre consegue acompanhar o mesmo ritmo do amor.
E hoje, olhando para tudo isso, só consigo pedir uma coisa:
que Deus abençoe, ilumine e guarde cada membro de nossa família — sem exceção. Os presentes e os ausentes. Os que entendem e os que ainda carregam dores. Os que se aproximam e os que preferem o silêncio. Porque, no fim, o tempo passa para todos nós… e chega um momento em que aquilo que mais desejamos não é ter razão… é apenas não perder quem um dia caminhou conosco dentro da mesma casa e do mesmo coração.
Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor.
